Analistas já esperam corte maior de juros

Fonte: http://www.ademi.org.br/article.php3?id_article=69683

O Banco Central (BC) manteve o ritmo e cortou novamente a taxa básica de juros da economia em 0,75 ponto percentual, de 13% para 12,25% ao ano. E indicou que o ciclo de queda deve continuar até que a Selic deixe o patamar dos dois dígitos: o comunicado divulgado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) cita o cenário das projeções dos analistas de mercado, que "embute hipótese de trajetória de juros que alcança 9,5% e 9% ao final de 2017 e 2018, respectivamente" - uma observação inédita por parte do BC. Para economistas ouvidos pelo GLOBO, o texto abre caminho para uma redução de 1 ponto percentual já na próxima reunião, nos dias 11 e 12 de abril.

Para Maurício Molan, economista-chefe do Santander, o comunicado "coloca um viés de que, se tiver uma surpresa, vai ser de aceleração do ritmo de corte". Mas ele ainda espera mais uma redução de 0,75 ponto. Molan acredita que uma aceleração de ritmo só deve ser observada se a inflação desacelerar mais que o previsto e o desempenho da atividade econômica se mostrar pior do que o esperado. Hoje, são dois fatores que ainda não estão no radar:

- O Banco Central quer dizer que o mais provável é que reduza a taxa básica em 0,75. E, se surgir alguma evolução favorável, está pronto para partir para o 1 ponto percentual. Não conto com essa surpresa. Meu ponto é que (o comunicado) aumenta a probabilidade, não é o mais provável (um corte de 1 ponto percentual).

BANCOS CORTAM SEUS JUROS

A queda de 0,75 ponto percentual, a segunda consecutiva, já era esperada pelo mercado. Com o corte de ontem, a Selic registra o menor patamar em dois anos: a última vez em que os juros básicos estiveram em 12,25% foi em janeiro de 2015.

O ciclo de quedas começou em agosto do ano passado, quando a Selic passou de 14,25% para 14%. Na ata da última reunião, em janeiro, o Copom já havia sinalizado haver um cenário econômico favorável para "uma antecipação do ciclo de queda dos juros". E no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, disse que os cortes de 0,75 ponto são "o novo ritmo" de queda da Selic.

"O Copom ressalta que uma possível intensificação do ritmo de flexibilização monetária dependerá da estimativa da extensão do ciclo, mas, também, da evolução da atividade econômica, dos demais fatores de risco e das projeções e expectativas de inflação", diz o comunicado divulgado ontem.

A queda nos juros reflete o arrefecimento da inflação. O BC avalia que, este ano, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficará dentro da meta, de 4,5%. Um dos fatores citados é a queda nos preços dos alimentos. Além disso, a atividade econômica permanece fraca. No cenário de referência utilizado pelo BC, o IPCA já chega a 4,2% este ano. Para 2018, está em 4,5%.

Segundo o Copom, os indicadores considerados mostram "alguns sinais mistos, mas compatíveis com a estabilização da economia no curto prazo". Ou seja, haveria uma retomada gradual da atividade econômica este ano.

Após a decisão do BC, Bradesco, Itaú Unibanco e Banco do Brasil (BB) também anunciaram a redução das taxas de juros de algumas de suas principais linhas de crédito para pessoas físicas e jurídicas. Estas incluem empréstimo pessoal, financiamento de veículos, cartões de crédito e linhas de capital de giro.

No Bradesco, as novas taxas valem a partir de 1º de março. A magnitude da redução varia conforme a modalidade do crédito. Já o Itaú Unibanco informou que está repassando o corte integral de 0,75 ponto percentual para suas linhas de crédito para pessoa física e jurídica. Em nota, o presidente do banco, Roberto Setubal, disse que "a política monetária vem sendo conduzida de forma a beneficiar ao crescimento econômico sustentável num ambiente de baixa inflação."

CRÍTICAS DE ENTIDADES

O BB informou que as principais quedas, de até 0,12 ponto percentual ao mês, ocorrerão em linhas de crédito para capital de giro voltadas a micro e pequenas empresas, com destaque para operações de recebíveis. O BB também reduziu taxas para pessoas físicas, especialmente financiamento imobiliário, cheque especial e crédito consignado. As taxas entram em vigor em 1º de março.

Para Paulo Caffarelli, presidente do BB, "a redução continuada da Selic contribui para melhorar o ambiente econômico."

Já as entidades empresariais e sindicais cobraram um corte mais ousado da Selic. Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), afirmou que o corte de 0,75 ponto "não é o bastante" e que há espaço para "recuos maiores da Selic". Ele afirmou que "o Brasil tem pressa para retomar a rota do crescimento."

O presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Alencar Burti, também afirmou que o Copom poderia ter reduzido um pouco mais a Selic, "dadas a apreciável queda da inflação, a perspectiva do ajuste fiscal e a gravidade da crise econômica".

A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), por sua vez, destacou que a economia ainda não apresenta sinais robustos de recuperação e que a inflação mantém sua trajetória de queda. E cobrou medidas de reforma para acompanhar a redução dos juros.

A Força Sindical classificou a redução da Selic de "tímida e frustrante". Para o presidente da central, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, deputado federal (SD-SP), o juro "estratosférico praticado no país é uma forma de concentrar cada vez mais renda nas mãos de banqueiros e especuladores."